“Remote Instructions” (instruções remotas) é um projeto de Lee Walton. Segundo o site, “Remote Instructions é um projeto centrado na web que tanto a comunicação da web quanto a participação dos usuários. De uma central, Walton colabora com desconhecidos em todo o planeta via web, e orquestra uma séria de perfomances gravadas em vídeos que tomarão conta de cidades, vizinhanças e vilas reais ao redor do mundo”.
O projeto funciona da seguinte forma: de tempos em tempos, Walton deixa em seu site na web uma sugestão de vídeo a ser produzida. Após isto, aguarda que alguém em algum lugar do mundo envie um vídeo seguindo as normas impostas por ele. Os vídeos sugeridos por Walton sempre seguem temas como a virtualidade e a relação entre as pessoas e o ambiente que ocupam, normalmente sugerindo pequenas interferências no ambiente das cidades. Como por exemplo: trocar coisas de lugar, mover objetos que estão nas ruas, andar pela cidade quicando uma bola de basquete nas paredes ou simplesmente se pendurar em diferentes suportes (árvores, bancos, pontes) pela cidade.
“Import/Export”
Walton utiliza a rede tanto para formular quanto para disseminar os vídeos do projeto. Ele usa a internet para possibilitar que outras pessoas, de qualquer lugar do mundo, participem do seu projeto. Aliás, este é um projeto que só funciona com a participação de outras pessoas, já que o autor do site não produz estes vídeos, somente os orienta. O que ele pretende é justamente ver suas idéias sendo executadas em diferentes partes do globo, através de suas “instruções remotas”.
“Making Changes”
É possível enxergar nestes projetos operadores conceituais como imersão e desmaterialização. Esse tipo de obra, no qual espectadores assumem o papel do autor da obra em uma perfomance é chamado por Claudia Giametti de metaformance. Segundo ela: “(…) possibilita que o espectador seja convidado a assumir seu lugar na consumação da (inter)ação. (…) Sua caracterísitca princial é a capacidade de gerar um novo evento, no qual os conceitos de obra, público, performer, entorno e procedimento estão, em maior ou menor medida, circunscritos à relação entre ser humano e máquina (digital, telemática, etc).” Sendo assim, o performer (no caso, Lee Walton) constrói suas performances sem estar sequer no lugar onde elas são executadas, usando a internet como intermediário. Ainda segundo Giameeti: “O espectador é imerso numa atmosfera artificial, na qual a distancia fisica entre a imagem e o corpo visível só é superável por meio de uma interação virtual. A simulação ou ação se dá em um espaço virtual atemporal. O tempo perde seu sentido seqüencial e unidirecional em favor do tempo manipulável e infinitamente recuperável por meio da eletrônica. Aqui se desdobra, de forma evidente, a idéia de ubiqüidade e imaterialidade.”
“Gettng a leg up”
O próprio autor brinca com o conceito de desmaterialização em alguns de seus vídeos, nos quais várias pessoas diferentes saltam obstáculos invisíveis pela cidade. O fato de, em alguns vídeos, estas pessoas interferirem no ambiente em que estão ou executarem ações excêntricas (como ficar pendurados) também é uma forma de se dizer “eu estou aqui”, como se o autor se transportasse para estes lugares através destas pessoas e da relação delas com a web.
Já o conceito de imersão é observado no momento em que a participação do espectador se torna parte da obra. Eles são, em parte autores da obra juntamente com Walton – “Interator como Autor- ‘A autoria nos meios eletrônicos é procedimental. (…) O autor procedimental não cria simplesmente um conjunto de cenas, mas um mundo de possibilidades narrativas’”. Walton possibilita que pessoas de deferentes lugares “aprendam a nadar” segundo as regras de seu site, criando assim um ambiente participativo que se torna imersivo para estas pessoas.
Pensando em uma maneira de tornar esse projeto ainda mais interativo (considerando que ele já se caracteriza por ser um projeto colaborativo), pensamos na possibilidade de ser criado um site como o You Tube (porém bem mais simples), onde os colaboradores podem fazer upload dos seus vídeos diretamente para o site. Este site, que teria a moderação de Walton, facilitaria a organização dos vídeos, relacionando-os entre si (e entre os outros projetos de Walton). Seria interessante também possibilitar a colocação de comentários nestes vídeos, como ocorre no You Tube.
Outra possibilidade é a de se criar uma via de “mão-dupla” para a elaboração das idéias dos vídeos, possibilitando aos usuários sugestões de novos vídeos, sendo elas postas em prática após a aprovação de Walton. É como se os espectadores tivessem a chance de falar por ele, dizendo aos outros espectadores (ou ao próprio Walton) o que fazer.
Uma outra possibilidade seria apresentar um local específico do mundo (uma rua, por exemplo) e perguntar ao espectador como ele deseja intervir nesta rua. Quem responder mais rápido ganha, e o próprio Walton se encarregaria de fazer a intervenção, trocando algo de lugar ou executando uma perfomance.
Desta forma, tem-se a formação de um ambiente onde é possível uma imersão mais profunda do que o que existe agora, já que mesmo os espectadores que só olharem o site (os que não participam com os vídeos) poderão participar indiretamente na produção dos mesmos, assim como terão um site mais atrativo para acompanhar.
Em se tratando da desmaterialização, acreditamos que a possibilidade de permitir aos espectadores sugerir idéias para novas perfomances (e também a possibilidade de sugerir intervenções em determinados locais para o autor do site) criaria uma nova forma de desmaterialização: no caso, poderia ocorrer uma inversão de papéis, com os espectadores experimentando a sensação de “forçar” o autor do site a executar uma tarefa. Neste caso, eles experimentariam a desmaterialização de forma clara, fazendo com que suas ações sejam executadas por outra pessoa em um lugar diferente.
Desta forma, acreditamos dar ao excelente projeto de Lee Walton um tom mais interativo, criando novas possibilidades para o mesmo.
Por Felipe Amore, Fernando Morais, Rafael Fontenele e Vinícius Vasques.
Bibliografia:
GIANETTI, Cláudia. Estética digital; sintopia da arte, a ciência e a tecnologia. Belo Horizonte: C/Arte, 2006, p. 77-115.
MURRAY, Janet. Hamlet no Holodeck; o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Itaú Cultural, UNESP, 2003, p. 101-150









